quinta-feira, 23 de julho de 2020

E ela se queria entregar a ela mesma como tantas vezes no passado fez. Quando só ela sabia arrancar de si mesma o prazer máximo.
Mas não sabe mais, ele a domou. Ele domou os seus sentidos, ele arrancou dela a experiência de se ter.
E sem ele ela já não sabe como, ela já não o consegue superar. Ela perdeu se de si mesma, ele a roubou e não a devolveu.
E a distância não lhe permite se recuperar ou permitir que ele a tome como sua como o fez vezes sem conta.
E ela permanece assim cheia de si mas vazia dele, cheia de alertas aos seus sentidos mas impossibilitada de os satisfazer.

Será que ele sabe o quanto levou dela com ele? O quanto dele está impresso nela mas inacessível?

Ela se revolta, ela não queria ter se impresso nele, ela desejara aquela entrega como nunca. Era o que ela sempre mais quisera na sua vida mas ao mesmo o que mais temia. Temia não se recuperar a si, temia perder a possibilidade de voltar a se imprimir nele, mas mais grave temia que ele já não a quisesse para ele.

Os seus sentidos gritavam de dor de não o ter por perto.

In 'Diario dos Sentidos' - Ana Luísa Ribeiro

Sem comentários:

Enviar um comentário